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Ser curandeiro em Moçambique: uma vocação imposta?
Escrito por Paulo Granjo
23-Jul-2010
Em Moçambique, como em vários outros
países de diferentes continentes, os “médicos tradicionais” ou “curandeiros”
assumem um papel central quer na prestação de cuidados de saúde, quer na
regulação da incerteza e dos problemas sociais dos seus utentes.1
Esses terapeutas são normalmente chamados tinyanga (sing. nyanga) no sul do
país e, de acordo com as teorias locais, devem os seus poderes curativos,
divinatórios e de eficácia ritual ao facto de serem possuídos por espíritos de
defuntos, que com eles formam uma simbiose profissional e ontológica (Honwana
2002).
Serão ainda estes espíritos que os forçarão a abraçar a profissão,
através de uma doença de chamamento que é, simultaneamente, uma declaração de
intenções por parte dessas entidades espirituais e uma ameaça de morte caso
recusem submeter-se-lhes.
No entanto, a partir do momento em que um deles inicia a sua formação,
orientada por um(a) nyanga experiente, a profissão passa a ser o fulcro da sua
existência, a que todos os restantes aspectos da vida se subordinam, e objecto
de um forte investimento emotivo, intelectual e valorativo.
A actividade e percurso profissional dos tinyanga aparenta, assim,
constituir uma forma de “vocação” imposta, mesmo se os próprios não recorrem a
essa noção quando equacionam o assunto. No entanto, a realidade observável é
bastante mais complexa e ambígua do que aquilo que essas duas palavras poderiam
conter, e isto quer a analisemos a partir dos conceitos e princípios
explicativos que são dominantes nesse contexto sócio-cultural, quer recorramos
àqueles que são património das ciências sociais.
Este texto parte, por isso, do desafio de verificar em que medida a
ideia de vocação é adequada e pertinente para compreender a relação dos
tinyanga com a sua actividade e de que forma pode ela ser útil para clarificar
as dinâmicas do chamamento e do seu exercício profissional.
Em Moçambique, como em vários outros países
de diferentes continentes, os “médicos tradicionais” ou “curandeiros” assumem
um papel central quer na prestação de cuidados de saúde, quer na regulação da
incerteza e dos problemas sociais dos seus utentes.1 Esses terapeutas são
normalmente chamados tinyanga (sing. nyanga) no sul do país e, de acordo com as
teorias locais, devem os seus poderes curativos, divinatórios e de eficácia
ritual ao facto de serem possuídos por espíritos de defuntos, que com eles
formam uma simbiose profissional e ontológica (Honwana 2002).
Serão ainda estes espíritos que os forçarão a abraçar a profissão,
através de uma doença de chamamento que é, simultaneamente, uma declaração de
intenções por parte dessas entidades espirituais e uma ameaça de morte caso
recusem submeter-se-lhes.
No entanto, a partir do momento em que um deles inicia a sua formação,
orientada por um(a) nyanga experiente, a profissão passa a ser o fulcro da sua
existência, a que todos os restantes aspectos da vida se subordinam, e objecto
de um forte investimento emotivo, intelectual e valorativo.
A actividade e percurso profissional dos tinyanga aparenta, assim,
constituir uma forma de “vocação” imposta, mesmo se os próprios não recorrem a
essa noção quando equacionam o assunto. No entanto, a realidade observável é
bastante mais complexa e ambígua do que aquilo que essas duas palavras poderiam
conter, e isto quer a analisemos a partir dos conceitos e princípios
explicativos que são dominantes nesse contexto sócio-cultural, quer recorramos
àqueles que são património das ciências sociais.
Este texto parte, por isso, do desafio de verificar em que medida a ideia
de vocação é adequada e pertinente para compreender a relação dos tinyanga com
a sua actividade e de que forma pode ela ser útil para clarificar as dinâmicas
do chamamento e do seu exercício profissional.
Tratamento com sacrifício de ovelha (foto de Cremildo Binana)
Para o fazer, irei apresentar sumariamente
as características dos tinyanga, suas práticas e pressupostos subjacentes,
discutindo em seguida os dados que se revelem pertinentes, tanto a partir da
perspectiva conceptual dos próprios praticantes, quanto a partir de critérios
externos próprios às ciências sociais,2 procurando potenciar uma clarificação
mútua de ambos.
Esse percurso permitirá colocar
algumas hipóteses plausíveis e sustentadas acerca do processo de acesso à profissão
e, particularmente, da importância que nele assume a criação de consensos
sociais que atribuam, à pessoa que apresenta sintomas passíveis de serem
diagnosticados como doença de chamamento, características excepcionais e
desviantes.
Permitirá, também, constatar que
estes avanços na compreensão do fenómeno são bastante mais suscitados por uma
das acepções comuns da palavra vocação – a de uma predisposição de capacidades
e carácter para o exercício profissional – do que pelas definições sociológicas
que ligam o sentido da palavra à centralidade emocional (Weber 1979) ou
valorativa (Bellah 1985) da profissão na vida dos indivíduos.
Aliás, sendo a centralidade da
actividade profissional experienciada e concebida pelos tinyanga em termos
ontológicos (e não apenas emocionais e valorativos), essas definições revelam-se
limitadas e culturalmente situadas.
I. Os Tinyanga e a sua profissão
Na maioria dos contextos sociais (se
não em todos) coexistem diferentes modelos destinados a interpretar os infortúnios,
a incerteza e os acontecimentos aleatórios de forma a dar-lhes um sentido que
supere a sua aparente absurdidade e, de preferência, submetê-los a acções
humanas que os influenciem na direcção desejada. Por outras palavras, coexistem
diferentes sistemas de domesticação do aleatório e da incerteza (Granjo 2004),
de que as diversas pessoas conhecem pelo menos alguns traços essenciais e que
podem seleccionar conjunturalmente, consoante cada sistema se lhes afigure mais
ou menos pertinente para a interpretação do caso específico com que se
confrontam.
Moçambique não é excepção. Também
aqui são conhecidos e utilizados diferentes sistemas explicativos conforme as
circunstâncias (Granjo 2008a) mas, tal como acontece no resto do mundo, também
aqui existe um modelo dominante de interpretação do infortúnio, que serve de
matriz a vários aspectos da vivência social e, particularmente, constitui a
base da actividade e do papel social dos tinyanga.
Perante um infortúnio, a primeira explicação equacionada
será a possível inabilidade, ignorância ou recorrente negligência por parte da
vítima.
Mas, se esta era capaz de reconhecer os perigos,
conhecia os cuidados a ter para os evitar e, excepcionalmente, não tomou as
precauções necessárias ou, tomando-as, foi apesar disso atingida, são
mobilizadas duas outras causas possíveis: a feitiçaria, que atrairá a pessoa
para o perigo ou a distrairá da sua existência e iminência;3ou uma falta de
protecção por parte dos antepassados da vítima, que a deveriam desviar do
perigo e alertá-la em relação a ele, não o tendo feito.4 Essa suspensão da
protecção não é, entretanto, uma punição. É, antes, a única forma que os
antepassados têm de chamar a atenção para a sua necessidade de contactarem com
um seu descendente, pois perderam, com a morte, a capacidade de comunicar
directamente com os vivos e apenas o conseguem fazer através da adivinhação,
sonhos ou transe.
Este modelo interpretativo geral aplica-se também ao
caso específico da doença. A saúde é considerada o estado normal dos indivíduos
mas, para se manter, exige harmonia entre os vivos, o seu ambiente social e
ecológico, e os antepassados. Na doença, as causas materiais combinam-se, assim,
com uma das causas sociais que mencionei, ou com duas outras que lhe são
específicas: a acção de defuntos errantes que tenham sido inadvertidamente
trazidos de um local desconhecido pela vítima (e que irão ter um comportamento
semelhante ao de antepassados descontentes, para chamarem a sua atenção), ou a
acção de espíritos que «querem trabalhar» como nyanga e provocam na pessoa
escolhida uma doença de chamamento, para que ela aceite a sua reivindicação.
Dessa forma, mesmo se é reconhecida a existência de «doenças de hospital» e se
as teorias locais acerca da etiologia das doenças são muitas vezes paralelas
das académicas (Green 1999), não basta tratar a manifestação física de
enfermidade. Para que o problema não volte a aparecer, por não ter sido resolvida
a sua causa última, é também necessário restaurar o equilíbrio social e a
harmonia com os antepassados – o que, no caso do chamamento, implica aceitá-lo
ou negociar com os espíritos uma pessoa alternativa que assuma esse papel.5
Contudo, trate-se de doenças ou de problemas sociais
(que, assim, surgem amalgamados numa mesma lógica de causalidade, tornando-se
indiferenciadamente objecto de intervenção dos tinyanga), a correcta detecção
da sua causa subjacente e a tomada das medidas mais adequadas não garantem
necessariamente os efeitos desejados. De facto, as próprias teorias locais
reconhecem que o diagnóstico adivinhado num determinado momento não constitui o
futuro, mas antes aquilo que acerca dele indica a conjuntura presente. Uma
conjuntura que pode ser alterada através da acção sobre as suas causas passadas
e que, doravante, será influenciada pela complexa interacção entre todas as
entidades envolvidas na vida social, vivas ou mortas mas sempre dotadas de
agência. O resultado acaba, assim, por ser incerto e a acção humana
desenvolve-se, afinal, num contexto de caos determinístico e não de mera
determinação por parte dos factores que se consideram adivinháveis.6
Ser e tornar-se nyanga
O papel e função do nyanga é, neste quadro, ser um
prestador de serviços terapêuticos e rituais, ser um intermediário junto das
entidades espirituais (recorrendo à adivinhação ou transe) e ser um gestor da
incerteza. Isto faz com que, para além de curar doenças, possa ver-se obrigado
a desempenhar tarefas tão díspares como combater feiticeiros ou servir de
conselheiro matrimonial e familiar.
A capacidade para desempenhar estas tarefas advir-lhe-á
de ser possuído por espíritos (chikuembo) – ou seja, por entidades espirituais
que, ao contrário dos antepassados e defuntos comuns, adquiriram poderes
especiais em virtude do estatuto, acções ou excepcional força espiritual que
tiveram em vida, ou devido a circunstâncias negativas na sua morte. Com efeito,
não é suposto alguém escolher ser nyanga, mas antes ser escolhido(a) para essa
tarefa por espíritos que mantêm algum tipo de ligação familiar com a pessoa e
«querem trabalhar» através dela (ou, mais precisamente, com ela e nela), após
um acto de possessão.
Em casos excepcionais, que apenas detectei em famílias
onde um dos pais herdou uma grande quantidade de espíritos, a escolha pode ser
anunciada (por sonhos, adivinhação ou transe) mesmo antes do nascimento da
criança, juntamente com o género e o nome a atribuir ao bebé.
Habitual, contudo, é que a exigência de trabalho por
parte dos espíritos assuma a forma de uma «doença de chamamento» que, a par de
sintomas físicos individualizados e/ou de acidentes frequentes e insólitos,
incluirá uma fraqueza geral e fortes dores (em particular nas articulações),
para as quais a biomedicina não encontrará aparente explicação. Normalmente, o
enfermo irá recorrendo a todos os prestadores de cuidados de saúde a que puder
ter acesso, até que um nyanga lhe diagnostique uma possessão por espíritos,
revelando a identidade destes e os acontecimentos que, no passado e na
genealogia, legitimam o seu chamamento.
A família poderá nunca ter ouvido falar dessas histórias
e, por isso, recusar validade à sua exigência. Pode também, caso elas tenham
acontecido há várias gerações sem que os espíritos alguma vez tenham chamado
familiares seus, alegar que as razões invocadas já prescreveram e negociar uma
outra forma de compensação. Contudo, se as exigências são consideradas legítimas
mas o doente não reconhece a presença dos espíritos, se recusa a cumprir o
chamamento ou tenta adiá-lo sem razões válidas, espera-se que sistemáticas
doenças, desgraças e mortes o venham a atingir a si e à sua família.
Tal como aflorei relativamente à suspensão de protecção
dos antepassados, este comportamento violento por parte dos espíritos não é
atribuído a maldade, mas antes às limitações que eles enfrentam na sua actual
forma de existência. Embora poderosos, eles são «o que sobra» da pessoa que em
tempos foram. Não são, por isso, capazes de comunicar aos vivos o que querem,
vendo-se limitados a chamar a atenção deles de forma indirecta, propiciando
acontecimentos anormais e indesejados até serem ouvidos através da adivinhação
ou transe de especialistas.
Daqui resulta uma dinâmica que apresenta uma morfologia
semelhante à da noção de culto de aflição proposta por Victor Turner (1968) e
que, embora corresponda a uma ínfima minoria dos pacientes tratados pelos
tinyanga,7assegura a sua reprodução social
enquanto grupo: a vítima de uma doença de chamamento procurará solução junto de
um(a) nyanga e, uma vez diagnosticada como tal, só poderá superar o problema
aceitando tornar-se ela própria nyanga. O paciente tornar-se-á então um
terapeuta, e o vago crente, frequentemente semi-céptico acerca de tais
assuntos, tornar-se-á um divulgador e reprodutor da crença.
Entretanto, ter acesso a todas as capacidades de que um
nyanga pode dispor implica que se seja possuído por, pelo menos, três tipos diferentes
de espíritos: por membros falecidos da família (tinguluve, cuja principal
especialidade é a cura de doenças, embora também façam adivinhação), por
espíritos vaNguni (os invasores de origem zulu que estabeleceram o império de
Gaza no século XIX,8 cujas especializações são inversas das anteriores) e por
espíritos vaNdau (os mais longos resistentes à expansão Nguni, então integrando
já nas suas tropas os anteriores habitantes do sul de Moçambique, que têm como
principal especialidade o kufemba, processo de detecção e eventual expulsão de
espíritos que adiante referirei).
No seu chamamento dos vivos, os espíritos familiares
podem, simplesmente, reclamar qualquer um dos seus descendentes. Já a
legitimidade da exigência de um espírito “estrangeiro” para possuir alguém
deriva da relação que terá mantido com antepassados da família. Normalmente, os
espíritos vaNguni seriam senhores ou amigos de um antepassado que auxiliaram a
família e já não têm descendência, enquanto no caso dos vaNdau poderá tratar-se
de uma mulher trazida da guerra como escrava e concubina, dos seus parentes
chacinados (a cujos espíritos ela mostrou o caminho para a casa da família que
a manteve cativa), ou de um guerreiro morto antes de casar, que por isso exigiu
à família do seu oponente uma esposa viva e acabou por decidir trabalhar,
quando a sua raiva se apaziguou ao longo do tempo.
Independentemente da origem do espírito, contudo, as
consequências ontológicas da possessão serão no essencial as mesmas. Tanto ele
quanto o indivíduo possuído deixarão de ser as entidades separadas e
independentes que antes eram, para se tornarem num ser simbiótico, com uma
identidade nova e comum. Adaptando-se à coexistência durante o processo de
preparação e aprendizagem para se tornarem um nyanga, o espírito e a pessoa
viva influenciam o comportamento e a identidade um do outro - o que pode levar,
por exemplo, a alterações dos hábitos alimentares, de preferências diversas, de
temperamento ou até de religião, caso a que foi professada em vida pelo espírito
mais importante não seja a mesma da pessoa que é possuída.
Com o início da actividade profissional, após provas
públicas em que o aspirante a nyanga demonstra as suas capacidades, novas
mudanças acontecem. O território doméstico torna-se um local público e a sua
organização espacial passa a subordinar-se às necessidades de implantação e uso
das edificações necessárias para a consulta (preferencialmente, construídos em
forma circular) e para os tratamentos. Dado o receio que os tinyanga suscitam
nas outras pessoas, casar tende a tornar-se um projecto difícil, ao passo que
casamentos anteriores podem desagregar-se e, no caso das mulheres, a
estabilidade das relações matrimoniais costuma implicar a escolha de parceiros
com um comportamento mais modesto e contido que o habitual, a par de uma
cuidadosa gestão da sua auto-estima (Granjo 2009a). Também várias restrições
alimentares se passam a colocar, devido à relação com os espíritos ou a
pontuais necessidades rituais decorrentes de práticas profissionais
específicas, que em vários casos impõem também períodos significativos de
abstinência sexual. As rotinas familiares ficam, por sua vez, submetidas às
necessidades profissionais e à permanente disponibilidade de tempo para
atendimento aos clientes. Por fim, também os códigos de vestuário e as regras
de comportamento em público se alteram, em função daquilo que é considerado
digno ou denotativo do exercício profissional.
Em qualquer caso, no entanto, o primeiro passo é sempre
o diagnóstico, feito por adivinhação. O sistema mais utilizado na região sul do
país, e cuja leitura e interpretação ocupa uma parte significativa do tempo e
esforço durante o processo de aprendizagem,
O “tinhlolo”, um
conjunto de ossos, búzios, carapaças de tartaruga, pedras, moedas, invólucros
de sementes e vários outros objectos acrescentados individualmente por cada
nyanga, e que é complementado por dois outros conjuntos de adivinhação que
podem ser utilizados autonomamente – um deles composto por seis escamas dorsais
de crocodilo e o outro por seis cascas de sementes de nulu (lat. carissa
arduina).9Não é atribuído a estes objectos um poder autónomo ou uma vida
própria, sendo até considerados inúteis quando utilizados por alguém que não
integre em si espíritos que através deles se expressem e ajudem a interpretar a
complexidade da mensagem. No entanto, o seu papel é essencial no processo
terapêutico, pois a adivinhação cumpre, aí, um triplo objectivo: (1) descobrir
qual o problema do paciente, seja ele uma doença ou não; (2) descobrir a causa
subjacente a esse problema e, se esta for de carácter espiritual, quem a
provocou e o que deseja; (3) definir a terapia a aplicar.
Este percurso de descoberta é também um processo de diálogo
com o paciente, que terá de reagir às informações que lhe são dadas e às
perguntas que lhe são feitas, confirmando ou infirmando as linhas de leitura e
interpretação do nyanga e permitindo dessa forma o seu progressivo
aprofundamento, até o próprio tinhlolo se tornar secundário na consulta.
Em resultado disso, a adivinhação produz (conforme já
sugeri) uma conjuntura de quadros de causas e relações que deixa significativo
espaço para a acção do nyanga e do paciente, mas que será também influenciada
pela agência de muitas outras pessoas, vivas ou mortas. Assim, o resultado
nunca está assegurado à partida, mas é deste diagnóstico que resultará a linha
de tratamento, recorrendo às restantes técnicas disponíveis.
Se o problema que aflige o paciente é diagnosticado,
quanto às suas causas sociais, como resultante da vontade dos antepassados,
haverá que definir e executar as medidas compensatórias para com eles e para
com os vivos eventualmente lesados pela falta social que lhes desagrada.
Se a causa apontada é a feitiçaria, haverá, antes de
mais, que afastar as entidades ou forças que lhe servem de veículo.
Normalmente, isso poderá ser feito através de duas das formas de kufemba, ou
expulsão de espíritos: a fumigação com incensos específicos para o efeito e o
bafo, uma espécie de sauna em que o paciente se senta, tapado, junto de uma
panela em que ferve uma mistura de produtos vegetais e animais em que
normalmente antes se banhou.
Trate-se de espíritos ou de feitiçaria, medidas de
protecção deverão depois ser tomadas, mas estas são bastante semelhantes em
todos os casos, sejam eles de saúde, de propiciação ou de protecção social.
Na sequência destas
acções (ou sem recurso a elas, caso a sua necessidade não tenha sido diagnosticada),
as enfermidades específicas poderão ser tratadas de formas muito diversas. Uma
delas é de novo o bafo, neste caso com farmacopeia botânica específica para
cada doença. Outras formas de administração de fármacos são a ingestão, a
inalação, os banhos e a sua aplicação em incisões na pele, na chamada vacina.
Neste último caso, a aplicação é muitas vezes feita em simultâneo com o
tratamento de protecção para “blindar” o corpo, sendo os cortes efectuados nos
pontos considerados mais vulneráveis à agressão externa, espiritual ou física:
a cabeça, as costas e peito, a zona dos rins e as articulações dos membros.
O encerramento do processo implica, contudo, duas outras
acções: por um lado, assegurar a protecção futura, normalmente através de
vacina, mas que também poderá incluir banhos, bafos, defumações e amuletos; por
outro, uma nova adivinhação, para verificar se o tratamento foi totalmente
eficaz, tanto nos seus resultados físicos quanto na resolução dos problemas que
os originaram.
Contudo, se este conjunto de recursos é comum a todos os
profissionais que integrem espíritos adequados a cada um deles, o trabalho de
um nyanga nunca virá a constituir uma mera rotina repetitiva de discursos e
práticas “tradicionais” e aprendidas. De facto, em contraste com as imagens
normalmente formadas acerca deste tipo de figuras, os tinyanga não se encontram
manietados pelo passado ou pela consideração exclusiva dos conceitos e
explicações etiológicas locais. Em regra, interessam-se de forma entusiástica
tanto pelo reconhecimento externo da qualidade do seu trabalho, quanto pelas
explicações e práticas curativas e mágicas vigentes noutros contextos,
integrando facilmente na sua actividade (por vezes reinterpretando-os) inputs
oriundos quer de outras regiões e países, quer de outros sistemas de cura,
incluindo a biomedicina. A sua prática é, assim, personalizada e diversificada,
incluindo, para além do património comum da profissão, experiências,
especulações e inovações.
Uma “vocação imposta”?
De entre as muitas dezenas de tinyanga com quem tive
oportunidade de conviver ao longo dos últimos anos, nunca algum deles utilizou
a palavra “vocação” ao discutir a sua actividade ou o seu percurso
profissional.
Não que essa ideia, ou mesmo a palavra, lhes sejam
desconhecidas. Antes porque o discurso dominante acerca da profissão enfatiza
uma outra imagem que, longe de se limitar a ser um recurso retórico, é
interiorizada como uma faceta inerente à condição de nyanga: sê-lo é uma
“obrigação” para com a comunidade e os antepassados, um “fardo” a carregar, uma
“missão” que é imposta e acarreta quer sacrifícios, quer a renúncia a
aspirações que seriam legítimas para qualquer outra pessoa.
Contudo, se juntarmos a esta afirmação identitária o
empenhamento que investem e o prazer que quase sempre retiram do seu exercício
profissional, o quadro que encontramos aproxima-se de forma notável do de
outras actividades abordadas neste livro e encaradas pelos seus praticantes
como vocações.
Também seria fácil descortinar, nas práticas dos tinyanga,
características que correspondem às mais citadas tentativas de definição
sociológica de vocação: um empenhamento emocional com a actividade que torna o
seu exercício uma necessidade pessoal e uma prioridade central (Weber 1979), ou
uma valoração dessa actividade que torna o seu exercício inseparável da vida do
indivíduo, um valor em si mesmo e não apenas um meio para obter retribuição
económica (Bellah et all 1985). Poderíamos ainda acrescentar-lhes o chamamento
extra-humano ao qual Weber (1979) atribui a origem da ideia de vocação, ou até,
de forma mais polémica, levantar a hipótese de uma predisposição de carácter e
de capacidades, que quase sempre surge associada às acepções comuns dessa
palavra e que as ciências sociais têm sido mais tentadas a contornar do que a
esclarecer.11
Justifica-se, assim, questionar até que ponto serão
estes aspectos relevantes, independentemente da importância que lhes atribuam
os próprios indivíduos. Ou, ainda, em que medida a actividade e percurso dos
tinyanga corresponderá à ideia de vocação e, sendo esse o caso, em que medida
se tratará de uma vocação imposta, conforme sugere o interrogativo título deste
artigo.
De facto, se a vocação não é, enquanto tal, objecto de
reflexão dos tinyanga acerca de si próprios, isso não quer dizer que não valha
a pena indagar se as interpretações locais lhe correspondem, ou se essa palavra
e essa noção poderão ser úteis à compreensão das dinâmicas locais.
Tendo em conta as semelhanças que salientei alguns
parágrafos atrás, poderá parecer, à primeira vista, que a resposta às perguntas
que formulei será simples e inequívoca. Não o é, contudo, para um observador
distanciado, nem tão pouco o seria se procurássemos adoptar o ponto de vista e
as explicações locais.
Espíritos e homens
É verdade que, no quadro destas últimas, é atribuída aos
espíritos a escolha dos futuros tinyanga, esperando-se que a decisão dessas
entidades se imponha violentamente aos vivos, ameaçando a sua saúde ou mesmo a
sua vida. À pessoa escolhida – independentemente da vontade que ela tivesse de
abraçar, ou não, uma tal profissão e papel social – não restará mais do que
submeter-se, tentar negociar uma alternativa, ou sofrer as graves consequências
da sua recusa.
Mas é também verdade que tal escolha não é considerada
aleatória, ou sequer arbitrária. De entre um leque relativamente vasto de
candidatos possíveis (pelas suas diferentes relações familiares com o defunto
que os antecedeu, e sem que tais relações tenham que obedecer às regras de
descendência dominantes),12 os espíritos deverão escolher para nyanga quem for
mais adequado ao desempenho da profissão, devido à sua personalidade e
potencialidades.
Ou seja, considerando-se embora que essa actividade é
imposta a quem se torna nyanga, o próprio processo de imposição pressupõe,
reconhece e ratifica uma prévia predisposição de carácter e a posse de
capacidades intrínsecas para o exercício profissional. Pressupõe, afinal e na
acepção mais corrente do termo, uma vocação que o chamamento declara e
institucionaliza (com toda a autoridade que lhe advém de ser provocado pelas
entidades mais aptas a detectá-la), mesmo que tal vocação não seja
consciencializada ou sequer desejada por quem a possui.
No entanto, ao mesmo tempo que as interpretações locais
e a ideologia profissional reforçam a ideia tanto de uma vocação quanto da sua
imposição por parte de entidades exteriores ao praticante, não excluem a
possibilidade de dois acontecimentos capazes de relativizar bastante essa
imagem: que os espíritos possam não ter outra alternativa senão escolher a
“menos má” das pessoas genealogicamente disponíveis; ou que a sua escolha possa
ser errada.
A primeira possibilidade é evidente, visto que o leque
de possíveis candidatos, embora largo, é limitado.
A segunda deriva do facto de, sendo embora reconhecidos
aos espíritos vastos poderes e a capacidade de conhecerem profundamente os
vivos, eles não serem considerados omniscientes ou infalíveis. Por um lado,
enquanto “partes sobrantes” dos seres humanos que foram em vida, eles podem
enganar-se; por outro, sendo membros de uma rede de relações sociais com vivos
e mortos, os espíritos têm que negociar as suas escolhas e não dependem apenas
da sua vontade para influenciarem o mundo – também dependendo, para esse
efeito, dos acontecimentos materiais que vão ocorrendo e da complexa e mutável
interacção entre a agência de todos os seres envolvidos (Granjo 2007).
Por fim, segundo uma das interpretações possíveis da
perspectiva erudita local, poder-se-ia mesmo sustentar que não é correcto
equacionar um tema como a vocação focando-nos apenas na pessoa viva que se vem
a tornar nyanga – pois o nyanga não é, em rigor, apenas essa pessoa.
De facto, a ideologia da possessão localmente vigente
sustenta, conforme referi, que a pessoa viva e os espíritos que a possuem
deixam de ser entidades autónomas, para se tornarem um ser simbiótico, com uma
identidade nova e comum.
Desse ponto de vista, falar de vocação seria quase uma
redundância, visto que os seres que forçam a opção profissional (e que garantem
o sucesso futuro da nova entidade que é criada) disporão, à partida, da
experiência, dos poderes e dos conhecimentos necessários ao exercício da
actividade, a par da vontade e necessidade quase compulsivas de os aplicar. A
pessoa que eles possuem para que seja nyanga, entretanto, não é um mero
instrumento; integrará no seu “eu” em transformação essa vocação e capacidades,
à medida que ela e os espíritos aprenderem a viver e a trabalhar em conjunto.
Assim, e ainda segundo esse ponto de vista, poder-se-á especular acerca do
processo de escolha do futuro nyanga e das razões que o orientaram mas, uma vez
esta escolha feita e aceite, a eventual vocação (autónoma e/ou prévia) da
pessoa viva deixa de ser particularmente relevante.
Sintetizando, os princípios ontológicos e
interpretativos partilhados pelos tinyanga apresentam-nos a questão do
chamamento e da vocação de uma forma complexa e multifacetada, mas que só na
aparência é paradoxal: os espíritos escolhem, de entre as genealogicamente
possíveis, a pessoa que consideram mais vocacionada para ser nyanga e forçam-na
a aceitar a sua escolha; esta escolha poderá até não ser a melhor, mas tal não
põe em causa a futura eficácia do seu trabalho comum, pois o mais elevado grau
de vocação será sempre fornecido pelos próprios espíritos.
Existe, no entanto, uma segunda razão para que os
tinyanga não equacionem a vocação, entendida agora na acepção de centralidade
emotiva e valorativa da actividade profissional na vida dos indivíduos, que lhe
é atribuída por Weber e por Bellah.
São evidentes, mesmo no registo discursivo sóbrio e
contido que é esperado destas pessoas, o orgulho, prazer e entusiasmo com que
falam e reflectem acerca da sua profissão, das suas particularidades e dos
sentidos que lhes subjazem, acerca das áreas em que se consideram
especialistas, das técnicas que utilizam e daquelas que o interlocutor possa
conhecer de outras regiões ou países, ou ainda acerca das razões e dinâmicas
das doenças e infortúnios com que mais trabalham.
A par disso, é também saliente a subordinação às
exigências da profissão de aspectos tão centrais da vida corrente como a
ocupação do espaço residencial, as estratégias matrimoniais, a alimentação e a
actividade sexual, as rotinas familiares, os códigos de vestuário, as regras de
comportamento em público ou uma permanente disponibilidade de horários.
Por outras palavras, a vida de um(a) nyanga está
organizada em função da sua actividade profissional, que é simultaneamente o
aspecto mais relevante da sua identidade e que, mais do que constituir um valor
em si própria, se torna objecto de um investimento emotivo e intelectual
continuado, sendo assumida como a sua razão de existência enquanto pessoa viva
e o seu futuro quando defunto.
Esta vivência e visão, que poderíamos considerar uma
forma hiperbólica de vocação, é no entanto entendida num registo diferente, que
talvez não o seja menos: nyanga não é uma actividade que se faz, mas aquilo que
se é. Nyanga é uma natureza que se aceita e se assume, acarretando isso uma
existência inerentemente excepcional (no poder que fornece, nos desafios que
cria e nas restrições que implica) e na qual, tal como no caso das profissões
industriais perigosas (Granjo 2004), as limitações que nos são impostas e as
ameaças que enfrentamos, superando-as, são simultaneamente um fardo e um motivo
de orgulho e auto-estima. Ou seja, a actividade profissional é equacionada a um
nível ontológico e não a um nível emocional ou valorativo, por muito que estes
dois últimos aspectos sejam salientes para qualquer observador externo.
Pessoa e comunidade
Entretanto, as questões que inicialmente coloquei acerca
do carácter de vocação imposta que podemos vislumbrar nesta profissão não
passam a ter respostas mais simples e inequívocas quando nos afastamos dos
quadros conceptuais autóctones para adoptarmos princípios ontológicos e
analíticos mais familiares aos cientistas sociais e aos seus leitores habituais.
Efectivamente, da mesma forma que a fenomenologia local
da possessão nos diz (de forma ambivalente e na sua própria linguagem) que a
vocação é desejável a priori mas pode ser interiorizada por quem não a possua,
dificilmente se poderá afirmar com segurança, em relação a várias
características e capacidades recorrentemente observáveis nos tinyanga, em que
medida elas resultam de predisposições anteriores ou foram desenvolvidas no
processo de aprendizagem e de exercício profissional.
Conforme já sugeri, os tinyanga são bastante
diversificados em termos de carácter e comportamento. Há-os ensimesmados e
extrovertidos, assertivos e defensivos, arrogantes e modestos, generosos e
calculistas, reservados e abertos à discussão, conservadores e modernistas na
sua visão dos valores e relações sociais, mais lestos ou mais cuidadosos na
atribuição aos acontecimentos de causas espirituais ou mágicas, mais seguros ou
temerosos em relação a actos de feitiçaria por parte dos colegas e de outras
pessoas.
Não obstante, apresentam características recorrentes,
que são neles esperadas ou se revelam imprescindíveis ao seu sucesso
profissional.
Entre as primeiras, destacaria a habitual postura
corporal contida e algo prostrada que é mantida em contexto profissional, como
se as suas responsabilidades e conhecimentos lhes pesassem sobre os ombros. Uma
postura que pode, no entanto, transformar-se facilmente em demonstrações de
flexibilidade, expressividade e alegria, caso a situação o permita.
Quanto ao segundo aspecto, predominam nesta profissão
indivíduos com uma capacidade muito apurada de observação e análise da
linguagem corporal, dos indícios comportamentais e dos sentidos subjacentes ao
que lhes é dito, a par de um raciocínio rápido e de uma particular mestria para
identificarem as expectativas e motivações dos seus interlocutores e as
utilizarem para, de forma pouco conspícua, os conduzirem às decisões e
comportamentos que desejam.
É ainda uma sua característica recorrente a dificuldade
de interpretarem situações, atitudes e problemas (e, portanto, de lhes
atribuírem causas) fora dos quadros normativos e valorativos localmente
dominantes, que em grande medida naturalizam e tendem a considerar universais,
mesmo quando sabem que outros existem, podendo até conhecer a lógica que lhes
preside.13
Se os dois parágrafos anteriores poderiam ter sido
retirados de um texto acerca de psicanalistas “ocidentais”, confesso que as
características e capacidades neles referidas me parecem ser bem mais marcadas,
evidentes e generalizadas no caso dos tinyanga. A recorrência com que isto pode
ser constatado, entretanto, incita o observador a questionar-se em que medida
essas capacidades – raras entre o conjunto da população – resultaram do
processo de aprendizagem e socialização profissionais, já lhe pré-existiam ou,
pré-existindo enquanto potencial, foram apuradas por esse processo.
Sem ter ainda uma resposta cabal a esta dúvida, os casos
de aprendizagem que pude observar levam-me a inclinar-me para a última
hipótese.
De facto, os tinyanga não ensinam explicitamente aos
seus aprendizes princípios ou técnicas de observação, análise ou manipulação. É
não obstante comum que, após o atendimento de um cliente na presença (também
ela habitual) da pessoa que está a aprender, comentem com ela um ou outro
pormenor que permite, a um ouvinte atento, aperfeiçoar essas capacidades.14
Por outro lado, as sessões de adivinhação que servem de
base ao diagnóstico do problema do cliente, e daquilo que o causou, possuem uma
dinâmica de comunicação biunívoca, na qual essas capacidades desempenham um
papel relevante (Granjo 2007 e 2010). Ao acompanhar as sessões a partir de
determinada fase da sua formação, até passar a ter um papel activo nelas, o(a)
aspirante a nyanga não desenvolve apenas a sua capacidade de leitura do
conjunto de peças de adivinhação (tinhlolo), mas também as competências que
temos vindo a discutir. Entretanto, basta acompanhar as suas tentativas de
intervenção ao longo de algumas semanas para notar uma clara evolução, tanto na
confiança com que estas são feitas, quanto na sua eficácia junto dos clientes.
Isto faz igualmente suspeitar da prévia existência de um potencial para o
desempenho das funções, tanto mais que, nos casos em que pontualmente isso não
acontece, o processo de aprendizagem acaba por se arrastar bastante no tempo,
podendo mesmo o mestre vir a pressionar o seu pupilo no sentido de desistir de
parte das tarefas habitualmente atribuídas aos tinyanga, limitando-se a
realizar tratamentos diagnosticados e prescritos por outros colegas.
Assim sendo, também o processo de chamamento deverá
merecer uma análise mais aprofundada a partir de critérios próprios às ciências
sociais, tanto no que concerne a sua dinâmica, quanto o seu eventual carácter
impositivo para o indivíduo que o experiencia.
De facto, se o discurso dos tinyanga acerca de si
próprios apresenta o acesso à profissão como uma evidente imposição externa a
que têm de se submeter a contragosto, há aspectos observáveis na realidade
social que põem em causa um tal consenso.
Antes de mais, eles próprios referem a existência de
indivíduos que, não tendo sofrido a doença de chamamento nem apresentando
antecedentes familiares, compraram a tinyanga ou a feiticeiros espíritos que os
possuíssem, a fim de poderem satisfazer o seu desejo pessoal de exercerem a
actividade.15
Esta apetência pelo exercício da profissão, apesar dos
constrangimentos que esta impõe, é menos estranha do que poderá parecer.
Um factor relevante é de carácter económico. Num
contexto em que a oferta de emprego é rara e a sua remuneração muito baixa, ser
nyanga traz proventos financeiros que, embora irregulares, não são de forma
alguma negligenciáveis e superam bastante as alternativas a que a maioria da
população pode aspirar.
Por outro lado, a actividade de nyanga confere a quem a
exerce um estatuto social, uma autonomia de decisão e um poder sobre os outros
que coloca os seus praticantes numa posição bastante superior àquela a que, de
outra forma, poderiam aceder. Este aspecto, que pode constituir por si só um
importante factor de atracção para as pessoas que mais o valorizem, torna-se
particularmente sensível no caso das mulheres, devido à sua habitual situação
de subalternidade numa sociedade marcada por uma forte dominação masculina.
Mas isto quer também dizer que estes factores podem ser
igualmente relevantes e atractivos para a entrada na profissão de pessoas que o
fazem de forma “clássica” e sofrida. Combinando-os com as características
recorrentes dos tinyanga que antes referi e com a forma confortável como estes
vivenciam o seu ascendente sobre as outras pessoas, entretanto, justifica-se
até equacionar em que medida esta profissão constituirá (a par de tudo o resto)
um “nicho” para a integração socialmente útil de indivíduos com características
que são consideradas excepcionais e passíveis de criar tensões e problemas,
caso os seus possuidores se vejam limitados às ocupações e às regras gerais
vigentes para as outras pessoas. A ser esse o caso, tratar-se-ia aliás de uma
situação relativamente comum e detectada em sociedades diversas, desde que esta
questão foi abordada por Ruth Benedict (1934).
Revertendo estas hipóteses sobre a última questão que
inicialmente levantei (em que medida estamos perante uma vocação imposta),
deveremos antes de mais salientar que o reconhecimento social de que um
determinado conjunto de sintomas constitui uma doença de chamamento não é
automático.
Excepto quando tal situação era esperada numa
determinada família, ou quando se criou um consenso inicial (na família e
vizinhança) acerca da provável natureza do mal, o processo de reconhecimento
costuma ser longo, desde logo quanto à passagem da tentativa de cura do espaço
dos hospitais para o das cabanas de tinyanga. Em seguida, é frequente que
vários tinyanga se recusem a diagnosticar a doença como sendo um chamamento,
até que um deles se sinta suficientemente seguro para o fazer – tendo esse
diagnóstico que ser ainda objecto de consenso familiar para vir a ser aceite.
Entretanto, sintomas semelhantes aos que afligiram alguns tinyanga durante o
seu chamamento nunca chegaram a ser, no caso de outras pessoas, diagnosticados
como tal.
Há, assim, um processo de negociação social a vários
níveis para que um determinado quadro patológico possa ser apontado
publicamente como uma possessão por espíritos que «querem trabalhar» e para que
tal recolha aceitação.
Nunca tive oportunidade de observar um destes processos
no contexto familiar e vicinal do próprio doente, e temo que as descrições que
deles são feitas a posteriori sejam pouco úteis para esclarecer com total
segurança o ponto que irei sugerir em seguida.16
No entanto, parece-me bastante plausível que a criação
de consensos sobre a origem dos sintomas seja fortemente influenciada pela
paralela criação de um consenso acerca da adequação entre, por um lado, a
imagem colectiva acerca da personalidade e especificidades comportamentais do
doente e, por outro, as características esperadas numa figura social particular
e desviante como é o nyanga. Por outras palavras, sugiro que pessoas a quem já
antes eram reconhecidas características pouco habituais (pelo intensidade de
capacidades que possuem, ou por se comportarem de forma desviante daquilo que é
considerado normal) são mais facilmente apontadas e aceites como estando a ser
chamadas, quando apresentam uma doença sem outra explicação evidente.
Aliás, vários tinyanga me confidenciaram (sobretudo se o
seu chamamento foi precoce, vivessem eles em contextos rurais ou urbanos) que
já eram considerados “estranhos” e “diferentes” antes de terem passado por
episódios de transe ou doenças que pudessem sugerir uma possessão por
espíritos.
Nos casos em que já existia esse consenso acerca de um
carácter excepcional e potencialmente inadaptado daqueles que se vieram a
tornar tinyanga, em que medida pode ele tomar os contornos de uma pressão
social (mesmo que não deliberada) para que assumissem uma vocação mais adaptada
às características que lhe eram atribuídas? E, tendo esses indivíduos
consciência das avaliações de excepcionalidade que acerca deles eram feitas, de
que forma poderia esse facto interagir com eventuais expectativas pessoais de
se virem a reger por regras de excepção, como as aplicáveis a um nyanga? Em
última instância, poderá uma conjugação de factores deste tipo explicar,
nalguns casos, a própria emergência doença de chamamento?
Independentemente da resposta à última pergunta,
estaríamos, caso as duas anteriores fossem pertinentes, perante uma vocação
simultaneamente imposta (agora, por parte da família e da comunidade) e
construída pelo indivíduo, enquanto solução mais desejável para si.
Seguranças e dúvidas
Confirmar ou infirmar esta hipótese através de meios
discursivos implicaria, contudo, que os interlocutores locais a considerassem
merecedora de ser discutida com seriedade. A minha experiência diz-me que não é
assim. Para um nyanga (presente ou futuro) ou para alguém que se viu envolvido
no seu chamamento, o facto de este resultar da acção dos espíritos é um dado
adquirido. Discutir uma interpretação que os exclua é, por isso, um absurdo que
não merece o esforço, o resultado de uma ignorância que urgirá colmatar através
da explicação da interpretação local, ou um abuso que pretende impor a uma
realidade evidente critérios que lhe são estranhos.
Ficamos, dessa forma e acerca deste assunto, limitados à
especulação intelectual e à vaga e improvável esperança de que, no futuro,
alguém possa ter a possibilidade de, tendo em mente as perguntas que formulei,
acompanhar um processo de chamamento desde antes da sua ocorrência formal.
Estas dúvidas não impedem, contudo, que possamos apontar
algumas respostas seguras para as questões que nortearam o nosso percurso ao
longo deste artigo.
Prendiam-se elas, recordemos, com a eventual
correspondência da actividade e percurso dos tinyanga à ideia de vocação (e o
carácter de imposição que esta apresentaria), com a relação entre vocação e as
interpretações locais e, por fim, com a eventual utilidade que essa palavra e
noção poderiam apresentar para a compreensão das dinâmicas de chamamento e
exercício profissional dos tinyanga.
Pudemos verificar que são observáveis na actividade dos
tinyanga as características atribuídas à vocação, tanto no sentido sociológico
da sua centralidade emocional e valorativa na vida dos seus praticantes, quanto
no sentido mais comum de predisposição de carácter e potenciais capacidades para
o seu exercício.
Vimos também que, numa perspectiva interna ao sistema de
pensamento que serve de sustentáculo a esta actividade, a questão da vocação
tanto pode ser considerada redundante como, simultaneamente, servir de base à
demonstração quer do seu carácter impositivo, quer da esperada predisposição
daqueles que são chamados.
Esta predisposição de características pessoais adequadas
e necessárias à actividade (que tudo indica venham a ser refinadas e
desenvolvidas nos processos de aprendizagem e exercício profissional) é, por
sua vez, também reconhecível a partir de uma perspectiva exterior que restrinja
a análise aos factores sociais observáveis, excluindo da equação a putativa
acção dos espíritos.
Ela permite-nos, aliás, explorar e aprofundar as
dinâmicas do chamamento numa direcção que, se não é habitualmente equacionada
pelas próprias pessoas envolvidas, faz sentido para elas: a forma como a prévia
imagem pública da pessoa que vem a ser chamada (como sendo alguém com
comportamento e capacidades que fogem, de forma algo inquietante, às normas
correntes) parece facilitar a identificação e aceitação do seu problema de
saúde como sendo um chamamento. Um mecanismo que, em última instância, se pode
transformar numa pressão social para que o indivíduo em causa assuma o papel de
nyanga – e, nesse sentido, numa imposição da vocação.
Desta forma, a utilidade de termos importado para este
contexto profissional uma noção que lhe costuma ser extrínseca acaba, afinal,
por ser muito mais marcada no caso das acepções correntes da palavra vocação do
que quanto às suas definições sociológicas, que pouco mais nos permitiram que a
constatação de que podem ser aplicadas a esta realidade, embora não lhe
correspondam com exactidão.
Esse “pouco mais” é, no entanto, relevante.
Centrando-se essas definições na experiência subjectiva
da actividade profissional (por muito socialmente formatada que essa
experiência possa ser), é no seu confronto com experiências subjectivas
concretas que se revela a sua pertinência e limitações. Ora pudemos verificar
que, se a centralidade da profissão na vida dos tinyanga apresenta os traços
emocionais e valorativos esperados, estes são apenas aspectos de uma
experiência subjectiva cujo âmbito os ultrapassa: ser nyanga não é apenas uma
paixão altamente valorizada pelo próprio, mas uma condição ontológica.
As noções de vocação com que costumamos trabalhar são,
então, insuficientes – mesmo que as complementemos com acepções comuns da
palavra.
São também, tudo o leva a crer, culturalmente situadas.
por Paulo Granjo
Antropólogo, investigador do ICS-UL e
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1. 1. O presente artigo resulta do projecto de investigação «Nyangas
e Hospitais – lógicas e práticas curativas Moçambicanas», financiado pela
Fundação para a Ciência e Tecnologia. Para uma exposição mais aprofundada do
papel social dos tinyanga e das noções locais de saúde, doença, infortúnio e
cura, veja-se Granjo (2009). Note-se que a aparentemente respeitosa designação
de “médicos tradicionais” (que, aliás, é retomada nas designações das suas
associações representativas) tende a remeter as suas práticas para uma imagem
de localismo tradicionalista que não corresponde à realidade, nem no norte do
país (West 2005), nem no sul. A carga semântica de ambas as traduções
portuguesas faz com que utilize neste texto a designação original de tinyanga
para me referir a eles.
2. 2. Ou seja, utilizando o actual jargão antropológico,
recorrerei a abordagens tanto émica quanto ética.
3. 3. Acredita-se ainda que a feitiçaria possa agir directamente
sobre factores materiais, mas tais diagnósticos são relativamente raros e, em
geral, limitados a situações de tensão social de excepcional intensidade.
4. 4. Os princípios gerais deste sistema são, então, similares aos
da clássica interpretação de Evans-Pritchard (1978 [1937]) acerca da bruxaria
Azande, excepto no que concerne o papel activo dos antepassados. Este último
aspecto está, entretanto, presente em vários outros países africanos (Janzen
1992, Campbell 1998, Dijk et el 2000, Binsbergen 2003), incluindo alguns
bastante longínquos da região austral do continente (Westerlund 2000).
5. 5. Veja-se, por exemplo, o caso estudado por Polanah (1987).
Note-se, contudo, que esta negociação só é supostamente possível nos casos em
que a reivindicação dos espíritos é feita pela primeira vez numa determinada
família.
6. 6. Para aprofundar esta questão e os seus paralelos com
actividades tecno-científicas como a análise probabilística, veja-se Granjo
(2007 e 2008).
7. 7. Note-se, contudo, que muitos tinyanga estão genuinamente
preocupados, com uma possível “epidemia” de possessões durante a próxima
geração, quando os soldados sobreviventes da guerra civil moçambicana começarem
a morrer, pois a submissão destes a rituais de limpeza (Granjo 2007a) tê-los-ão
protegido de exigências das pessoas que mataram em situação de guerra, mas uma
tal protecção não é extensiva aos seus descendentes.
8. 8. Acerca deste Estado africano e dos diversos aspectos da sua
ascensão e derrocada, veja-se Clarence-Smith (1990 [1985]), Liesegang (1986),
Neves (1987 [1878]), Pélissier (1994) e Vilhena (1996).
9. 9. Acerca deste processo divinatório, veja-se Granjo (2007;
2007b).
10. 10. Considera-se que os espíritos não têm cheiro, para os vivos. A
justificação para esta forma de detecção reside, então, na simbiose entre o
nyanga e os seus espíritos – que, eles sim, conseguem cheirar os seus
semelhantes.
11. 11. Note-se que existe ainda um outro sentido corrente para a
palavra, aplicado com mais frequência pela negativa, quando alguém não consegue
exercer uma actividade que elegeu com o grau de mestria comummente esperado,
apesar do seu empenho e da eventual “paixão” do seu relacionamento com ela.
Nesta sua utilização, o sentido de “vocação” aproxima-se bastante do de
“talento”, uma outra palavra polissémica e de difícil definição, normalmente
restringida às actividades artísticas e (curiosamente) desportivas. Ela sugere,
contudo, que o campo semântico da palavra só fica esgotado se acrescentarmos,
aos critérios anteriores, a capacidade de exercer a actividade com elevada
competência.
12. 12. De facto, podem “herdar-se” espíritos por via patrilinear ou matrilinear,
em linha directa ou colateral e em diferentes combinações entre esses quatro
princípios. É, para além disso, normal que o conjunto de espíritos que
alegadamente possuem um(a) nyanga tenha sido recebido de diferentes defuntos,
com quem mantinha ligações familiares muito diversas.
13. 13. A título de exemplo, um nyanga meu conhecido e muito respeitado
deixou chocada uma cliente europeia ao diagnosticar, como causa de todos os
seus males, o facto de ela ser solteira e não ter filhos – o que não conseguia
conceber como uma opção deliberada de vida, mas apenas como uma situação contra
natura para a qual a cliente tinha sido empurrada por falta de alternativas e,
consequentemente, como uma fonte de desarmonia e problemas.
14. 14. Num contexto profissional que é bastante menos tradicionalista
do que se costuma imaginar e que, nalguns aspectos, o é mesmo menos que a
sociedade circundante, os tinyanga mais auto-reflexivos e seguros de si tendem
a deplorar o grau de humilhação, abuso psicológico e criação de dificuldades
com que se confrontaram no seu próprio processo de aprendizagem, adoptando,
quando mestres, uma atitude aberta e pedagógica para com os seus aprendizes.
15. 15. Esta situação suscita preocupações entre os tinyanga que
seguiram um percurso habitual e “clássico” pois, para além de dificultar a
auto-regulação profissional, pode suscitar perigos maiores do que os da
incompetência. Isto porque se considera que o pagamento desses espíritos não
cessa com a sua compra ao dono anterior, tendo depois eles próprios que ser
pagos regularmente «em sangue», isto é, com a morte de parentes ou vizinhos da
pessoa para a qual trabalham.
16. 16. Levanto esta dúvida porque os relatos feitos pelos tinyanga ou
pelos seus familiares só muito raramente referem por moto próprio que foram
equacionados, nos debates, o comportamento e a personalidade do doente. Quando
pergunto explicitamente se tal aconteceu, é frequente que os meus
interlocutores o confirmem; mas não tenho condições para garantir em que medida
tal confirmação se pode ficar a dever a uma reinterpretação coerente dos
factos, suscitada pela minha pergunta.